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PA-003 - Manual de Boas Práticas: Planeamento Familiar

Introdução

A Saúde Reprodutiva é um estado de bem-estar físico, mental e social em todos os aspetos relacionados com o sistema reprodutivo. O Planeamento Familiar (PF) representa uma componente fundamental na prestação de cuidados, possibilitando aos indivíduos e casais alcançar e planear o número de filhos desejados e o espaçamento dos nascimentos. A abordagem da pessoa/casal na consulta de PF deve ser contínua, estruturada e centrada no utente, envolvendo o médico de família, o enfermeiro de família e o secretário clínico. A uniformização de procedimentos permite melhorar a acessibilidade, a qualidade dos registos, a continuidade assistencial e a segurança dos cuidados. Este manual estabelece as boas práticas a adotar na USF para o aconselhamento, fornecimento de métodos contracetivos, cuidados pré-concecionais, rastreio e referenciação na área da saúde sexual e reprodutiva.

Definição ou enquadramento O Planeamento Familiar refere-se a um conjunto variado de serviços, medicamentos e produtos essenciais que permitem às pessoas, individuais e em casal, decidir se, quando e com que frequência têm filhos. A consulta de PF destina-se a apoiar e informar os indivíduos ou casais para que possam planear uma gravidez no momento apropriado, proporcionando-lhes a possibilidade de viverem a sua sexualidade de forma saudável e segura. Estes cuidados integram a prevenção de gravidezes não desejadas, o rastreio de IST e do cancro do colo do útero, bem como o aconselhamento em infertilidade.

População-alvo Este manual aplica-se a: * Utentes inscritos na USF em idade fértil (mulheres até aos 54 anos e homens sem limite de idade); * Mulheres com doença crónica que contraindique uma gravidez não programada; * Mulheres com paridade > 4, ou com idade inferior a 20 anos e superior a 35 anos; * Casais com espaçamento entre gravidezes inferior a 2 anos; * Puérperas e mulheres após interrupção de gravidez ou utilização de contraceção de emergência; * Familiares e cuidadores envolvidos no plano de cuidados; * Profissionais da USF envolvidos no circuito assistencial do PF.

Critérios de exclusão administrativa do seguimento estruturado Poderão ser excluídos do acompanhamento estruturado de PF, quando aplicável: * Utentes falecidos; * Utentes que não cumpram critérios de idade fértil (exceto homens sem limite de idade); * Utentes institucionalizados com vigilância clínica externa assegurada; * Utentes residentes no estrangeiro; * Utentes impossibilitados de contactar ou ser acompanhados pela unidade.

Procedimento

1. Objetivos * Promover uma vivência sexual gratificante e segura; * Informar e aconselhar sobre a saúde sexual e reprodutiva; * Permitir o planeamento de uma gravidez saudável e responsável (cuidados pré-concecionais); * Prevenir uma gravidez indesejada e reduzir morbilidade/mortalidade materna e infantil; * Fornecer gratuitamente o método contracetivo escolhido, de forma informada; * Reduzir o número de Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) e suas consequências; * Identificar precocemente situações de infertilidade e dificuldades sexuais; * Assegurar a realização do Rastreio do Cancro do Colo do Útero (RCCU); * Monitorizar indicadores de qualidade assistencial.

2. Circuito do utente * O utente contacta a USF ou é identificado oportunisticamente em consulta por profissional de saúde. * O secretário clínico agenda a consulta de PF (programada, aberta ou de intersubstituição), garantindo prioridade em situações de contraceção de emergência. * A enfermagem procede ao acolhimento, avaliação antropométrica, colheita de história clínica/sexual, aconselhamento sobre métodos contracetivos, educação para a saúde e fornecimento do método escolhido. * O médico avalia critérios de elegibilidade, realiza exame ginecológico/colheita para RCCU, prescreve/coloca dispositivos intrauterinos (DIU/SIU) ou implantes, e avalia necessidade de MCDT ou referenciação. * O utente é integrado em vigilância programada de PF. * A equipa monitoriza periodicamente a satisfação e correto uso do método, efeitos adversos e indicadores.

3. Critérios médicos de elegibilidade e escolha do método A escolha do método contracetivo deve ser ponderada e responsável. Em mulheres saudáveis, todos os métodos são elegíveis. A OMS estabeleceu critérios de elegibilidade para uso seguro em situações médicas especiais. A escolha deve respeitar a preferência individual, após informação isenta sobre: * Classificação, vantagens e desvantagens, uso correto e eficácia; * Possíveis efeitos adversos e riscos; * Atitude em caso de falha de utilização ou utilização simultânea de outros medicamentos.

Métodos disponíveis na USF para fornecimento gratuito: * Contracetivos Hormonais Combinados (CHC): Pílulas (ex: Diane 35®, Gynera®, Marvelon®, Microginon®, etc.); * Contracetivos Progestativos Orais (CPO): Azalia®; * Implante Subcutâneo: Implanon NXT®; * Contracetivos Intrauterinos: DIU Nova T380® e SIU Levosert®; * Método Barreira: Preservativo masculino.

4. Técnica de aconselhamento e fornecimento O fornecimento de contracetivos deve obedecer aos seguintes princípios: * Ambiente calmo, acolhedor e com privacidade; * Avaliação de hábitos, problemas crónicos, alergias e história obstétrica/ginecológica; * Avaliação de parâmetros antropométricos (peso, estatura, IMC) e Pressão Arterial (PA); * Fornecimento de, no mínimo, 6 blisters de contracetivos orais (para utilizadores habituais, sem patologia e com consulta há menos de 1 ano) e preservativos para período nunca inferior a 3 meses; * Entrega e assinatura de consentimento informado para métodos de longa duração (Implante e DIU/SIU); * Registo no processo informático do número de embalagens entregues e data; * Colaboração entre enfermeiro e médico na colocação/remoção de DIU/SIU e implantes.

5. Atuação perante situações específicas * Contraceção de Emergência (CE): Disponibilização de LNG ou DIU de cobre até 5 dias após relação sexual não protegida (RSNP). Aconselhamento compreensivo e isento de juízos. Agendamento de consulta programada para método continuado. * Pós-parto e Pós-aborto: Aconselhamento iniciado no pré-natal. Início de contraceção imediato ao procedimento ou na confirmação do aborto. Confirmação do método na revisão do puerpério (4-6 semanas). * Adolescência: Facilitar o acesso, promover a "dupla proteção" (preservativo + outro método) e desmistificar conceitos. * Perimenopausa e Descontinuação: CHC até aos 50 anos (em saudáveis/não fumadoras); restantes métodos até menopausa ou 55 anos. Diagnóstico de menopausa estabelecido por amenorreia ou doseamento de FSH conforme esquema clínico.

6. Vigilância programada da pessoa em PF A periodicidade deverá ser ajustada ao método escolhido, idade, presença de comorbilidades e juízo clínico.

Periodicidade orientadora * Consulta médica: anual ou conforme necessidade de colocação/remoção de dispositivos ou avaliação de queixas; * Consulta de enfermagem: fornecimento de método e educação para a saúde, com periodicidade definida pelas necessidades de stock do utente (ex: semestral); * Contactos adicionais sempre que existam efeitos adversos, dúvidas, alteração de método ou necessidade de contraceção de emergência.

7. Cuidados preventivos e complementares * Cuidados Pré-concecionais: História clínica completa, avaliação de riscos, verificação do PNV (tétano, rubéola, sarampo), RCCU atualizado, avaliação laboratorial (Grupo sanguíneo/Rh, hemograma, glicemia, serologias, VDRL, toxoplasmose, VIH, AgHBs). Suplementação com ácido fólico e iodo. * Cuidados em Infertilidade: Após 1 ano de relações sexuais regulares sem contraceção, estudo complementar (Homem: Espermograma; Mulher: FSH, LH, estradiol, progesterona, serologias, ecografia pélvica). Referenciação hospitalar conforme protocolo. * Rastreio do Cancro do Colo do Útero (RCCU): Início aos 25 anos ou 3 anos após início de vida sexual. Realizado até aos 65 anos através de colpocitologia.

8. Competências por grupo profissional

Atividade / competência Secretário clínico Enfermeiro Médico
Acolher o utente e orientar o circuito administrativo
Marcar, remarcar, efetivar ou anular consultas
Informar sobre horários, contactos e isenção de taxas moderadoras
Garantir prioridade a pedidos de contraceção de emergência
Colher história clínica, obstétrica, ginecológica e sexual
Avaliar parâmetros antropométricos e PA
Aconselhar e fornecer métodos contracetivos (orais e barreira)
Educar para a saúde (ISTs, dupla proteção, estilos de vida)
Colocar e retirar implantes subcutâneos e DIU/SIU ✓*
Realizar exame ginecológico e colheita para RCCU
Prescrever MCDT e terapêutica
Diagnóstico e gestão de situações especiais (menopausa, infertilidade)
Referenciar para cuidados hospitalares (IVG, laqueação, infertilidade)
Articular com equipa multiprofissional
Registar informação relevante no SClínico

(Colaboração na preparação e penso)

9. Consulta de enfermagem e registos Primeira consulta de enfermagem O enfermeiro de família deve: * Confirmar a identificação inequívoca do utente; * Acolher o utente/casal, adequando o diálogo às necessidades; * Colher história clínica e avaliar parâmetros antropométricos e PA; * Facultar informação isenta sobre métodos contracetivos e fornecer o escolhido; * Informar sobre cuidados pré-concecionais, IST e RCCU; * Verificar cumprimento do calendário vacinal; * Colaborar com o MF na colocação/remoção de dispositivos (preparação de material); * Entregar e arquivar consentimento informado (se aplicável); * Registar intervenções no SClínico; * Agendar consulta subsequente.

Consultas subsequentes de enfermagem * Validar correto uso do método, satisfação e efeitos adversos; * Fornecer contracetivos (mínimo 6 blisters ou preservativos para 3+ meses); * Reforçar ensinos sobre estilos de vida e prevenção de IST; * Registar no sistema clínico e encaminhar para avaliação médica sempre que necessário.

10. Consulta médica e registos No momento do diagnóstico/início de método O médico de família deve: * Recolher história clínica detalhada para adequar critérios de elegibilidade; * Realizar exame físico (antropométrico, PA, exame ginecológico, colheita de colpocitologia se aplicável); * Aconselhar e prescrever/colocar método contracetivo (DIU/SIU, implante); * Solicitar MCDT pertinentes (fatores de risco); * Prestar cuidados pré-concecionais e estudar casais com infertilidade; * Esclarecer dúvidas e reforçar adesão; * Registos no separador "Planeamento Familiar" do SClínico (Vigilância na USF, Ciclo Menstrual, Hábitos, Contraceção, Antecedentes, Histórias Obstétrica/Ginecológica/Pregressa, exame ginecológico).

Consultas médicas subsequentes * Reavaliar método contracetivo e satisfação; * Rever resultados de MCDT e RCCU; * Avaliar necessidade de mudança de método ou descontinuação; * Prescrever terapêutica e atualizar registos clínicos.

11. Situações a referenciar ou discutir com cuidados hospitalares São motivos de referenciação hospitalar: * Desejo de contraceção definitiva (laqueação tubária ou vasectomia); * Desejo de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG); * Dificuldade de colocação e/ou remoção de DIU/SIU e implante; * Casais com infertilidade após estudo inicial na USF, de acordo com protocolo da Rede de Referenciação de Infertilidade.

12. Indicadores de monitorização A avaliação do procedimento deverá incluir indicadores de segurança, processo, resultado e satisfação.

Dimensão Indicador
Segurança Cumprimento da identificação inequívoca do utente e validação de consentimentos informados
Processo Taxa de utilização de consultas de PF (méd./enf.) - Indicador 008
Processo Proporção de mulheres com RCCU atualizado (25-60 anos) - Indicador 045
Processo Proporção de utentes com registo de método contracetivo no SClínico
Resultado Proporção de mulheres que engravidaram de forma não planeada (no último ano)
Resultado Proporção de utentes referenciados por infertilidade com estudo prévio adequado
Satisfação Avaliação através de inquéritos de satisfação ou reclamações/sugestões relacionadas

Fluxograma (Inserir Fluxograma de atuação em PF conforme constante no manual original)

Monitorização da qualidade e auditoria interna A monitorização interna deve permitir identificar não conformidades, definir medidas corretivas e melhorar o desempenho assistencial.

Periodicidade * Monitorização mensal/trimestral dos indicadores de desempenho na plataforma MIM@UF; * Análise global e, quando aplicável, por médico e enfermeiro de família; * Apresentação dos resultados em formato gráfico ou tabela; * Discussão dos resultados em reunião de equipa/Conselho Geral.

Critérios de verificação no secretariado * Consulta médica e de enfermagem de PF agendada ou efetuada; * Prioridade de agendamento garantida para contraceção de emergência; * Atualização administrativa de contactos.

Critérios de verificação em enfermagem * Registo de aconselhamento e entrega de método contracetivo (quantidade e data); * Avaliação vacinal; * Registo de parâmetros antropométricos e PA; * Consentimento informado assinado e arquivado (Implante/DIU); * Registo de educação para a saúde (ISTs, método barreira).

Critérios de verificação médica/SClínico * Programa de Planeamento Familiar ativo; * Preenchimento completo dos separadores de PF no SClínico (Ciclo, Hábitos, Contraceção, Antecedentes, Histórias); * Registo de exame ginecológico e resultados de MCDT/Colpocitologia; * Registo de colocação/remoção de dispositivos e respetivos consentimentos; * Identificação de vigilância na USF: sim/não.

Anexos * Anexo I — Tabela de Critérios médicos de elegibilidade para uso de contracetivos (OMS). * Anexo II — Lista de métodos contracetivos disponíveis na USF. * Anexo III — Consentimento informado para colocação de Implante Subcutâneo e DIU/SIU. * Anexo IV — Recomendações de uso de contraceção após Contraceção de Emergência.

Referências bibliográficas * Direção-Geral da Saúde. Saúde Reprodutiva – Planeamento Familiar. Orientações Clínicas, 2008. * Direção-Geral da Saúde. Conduta em Infertilidade. Norma nº 003/2011. * Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco, 2015. * Direção-Geral da Saúde. Prestação de cuidados pré-concecionais. Circular Normativa nº 2/DSMIA, 2006. * Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação 2020. Norma 018/2020. * Pacheco, A. et al. Consenso sobre contraceção 2020. Sociedade Portuguesa de Ginecologia, 2020. * World Health Organization (OMS).

Gestores do procedimento Gestor Gestor Gestor

Registo de alterações

Revisão Aprovação Motivo de revisão Validade Autor
1 06/10/2022 Elaboração inicial do procedimento - -
2 01/06/2026 Adaptação e uniformização estrutural do procedimento 31/12/2028 -